Por Érica Sarmet
Bom, retomando a discussão do meu post anterior, se fôssemos classificar as séries de acordo com a maneira como as narrativas pessoais dos personagens se estruturam, teríamos dois (na verdade três, com as sitcoms e séries criminais) lugares bem diferentes:
1) Seriados em que o “trabalho” é a temática central, como Grey’s Anatomy, House, ER, Charmed, Supernatural: possuem narrativas que se desenvolvem e tem fim em cada episódio (por ex: pacientes, monstros a serem destruídos), porém as “narrativas pessoais” dos personagens principais são contínuas, o que pode atrapalhar o entendimento completo de um telespectador não-assíduo. Tendo como exemplo a série“Grey’s Anatomy”: o espectador pode acompanhar o que acontece com os pacientes e as cirurgias daquele episódio específico, mas talvez não compreenda porque um personagem está brigado com o outro, porque um deles está deprimido ou a quem eles estão se referindo ao dizerem “McDreamy” e “McSteamy”. Resumindo: mesmo possuindo arcos narrativos que começam e terminam no mesmo episódio, como as sitcoms e séries criminais, esses seriados se distinguem por possuirem arcos narrativos paralelos que se estendem ao longo dos episódios e das temporadas – quase sempre sendo a vida pessoal dos personagens o fio condutor dessas narrativas.
2) Seriados em que a vida pessoal dos personagens é a temática central, como Lost, Brothers and Sisters, True Blood, Vampire Diaries: apresentam quase que somente narrativas contínuas, tanto dos personagens quanto dos próprios episódios. Raramente algo que acontece em um episódio se limita a ele, como um personagem que surge em determinado episódio com uma narrativa própria e vai embora ao final dele com seu desfecho definido. É como se esses seriados se estruturassem como uma narrativa única com várias ramificações (o conceito de “flexi-narrativo*” se aplica completamente). É dificil chamá-las de “narrativas paralelas”, porque quase todas estão conectadas. A segunda temporada de“True Blood” é um ótimo exemplo: todas as narrativas próprias que cada personagem desenvolve acabam estando diretamente ligadas ao arco narrativo principal, que é a presença da Marianne em Bons Temps. Um espectador não acostumado a acompanhar um desses seriados pode ter dificuldades de compreender um episódio isolado dos outros.
A ideia, portanto, seria de que as séries e seriados poderiam ser classificados, também, com base na vida pessoal e na vida profissional dos personagens como condutores da narrativa. As sitcoms e séries criminais, tendo como temática central o trabalho, não desenvolvem as narrativas pessoais dos personagens. Já seriados médicos e sobrenaturais, como House e Charmed, também possuem o trabalho como sua temática central, porém as tramas pessoais são mais bem desenvolvidas e os personagens, mais complexificados. Seriados cuja vida profissional dos personagens estão em segundo plano, como Brothers and Sisters e True Blood, tendem a ter todas as narrativas desenvolvidas de maneira contínua e interligada, personagens super complexos, etc.
Essas definições não são fixas, como a Mariana bem frisou em seu post, mas são interessantes para discutirmos as classificações com base na estrutura da narrativa. Se séries são os programas que tem um desfecho definido, como Lost, e seriados são aqueles cujo desfecho está sempre em aberto, como True Blood, como esses dois produtos audiovisuais são tão parecidos em termos de estrutura narrativa? Isso seria o suficiente para colocá-las na mesma categoria? A maneira como as narrativas pessoais dos personagens são desenvolvidas é relevante o bastante para criar uma nova categoria de classificação? Será que todas as séries podem ser definidas por essas questões?
*flexi-narrativo: quando os arcos narrativos da obra são múltiplos e se apresentam como tramas de começo, meio e fim que podem se desenvolver em único episódio, como no caso das sitcoms, ou em uma temporada, como nos seriados.