por alepri | abr 30, 2010 | NEX!!!
Por Érica Sarmet
Bom, retomando a discussão do meu post anterior, se fôssemos classificar as séries de acordo com a maneira como as narrativas pessoais dos personagens se estruturam, teríamos dois (na verdade três, com as sitcoms e séries criminais) lugares bem diferentes:
1) Seriados em que o “trabalho” é a temática central, como Grey’s Anatomy, House, ER, Charmed, Supernatural: possuem narrativas que se desenvolvem e tem fim em cada episódio (por ex: pacientes, monstros a serem destruídos), porém as “narrativas pessoais” dos personagens principais são contínuas, o que pode atrapalhar o entendimento completo de um telespectador não-assíduo. Tendo como exemplo a série“Grey’s Anatomy”: o espectador pode acompanhar o que acontece com os pacientes e as cirurgias daquele episódio específico, mas talvez não compreenda porque um personagem está brigado com o outro, porque um deles está deprimido ou a quem eles estão se referindo ao dizerem “McDreamy” e “McSteamy”. Resumindo: mesmo possuindo arcos narrativos que começam e terminam no mesmo episódio, como as sitcoms e séries criminais, esses seriados se distinguem por possuirem arcos narrativos paralelos que se estendem ao longo dos episódios e das temporadas – quase sempre sendo a vida pessoal dos personagens o fio condutor dessas narrativas.
2) Seriados em que a vida pessoal dos personagens é a temática central, como Lost, Brothers and Sisters, True Blood, Vampire Diaries: apresentam quase que somente narrativas contínuas, tanto dos personagens quanto dos próprios episódios. Raramente algo que acontece em um episódio se limita a ele, como um personagem que surge em determinado episódio com uma narrativa própria e vai embora ao final dele com seu desfecho definido. É como se esses seriados se estruturassem como uma narrativa única com várias ramificações (o conceito de “flexi-narrativo*” se aplica completamente). É dificil chamá-las de “narrativas paralelas”, porque quase todas estão conectadas. A segunda temporada de“True Blood” é um ótimo exemplo: todas as narrativas próprias que cada personagem desenvolve acabam estando diretamente ligadas ao arco narrativo principal, que é a presença da Marianne em Bons Temps. Um espectador não acostumado a acompanhar um desses seriados pode ter dificuldades de compreender um episódio isolado dos outros.
A ideia, portanto, seria de que as séries e seriados poderiam ser classificados, também, com base na vida pessoal e na vida profissional dos personagens como condutores da narrativa. As sitcoms e séries criminais, tendo como temática central o trabalho, não desenvolvem as narrativas pessoais dos personagens. Já seriados médicos e sobrenaturais, como House e Charmed, também possuem o trabalho como sua temática central, porém as tramas pessoais são mais bem desenvolvidas e os personagens, mais complexificados. Seriados cuja vida profissional dos personagens estão em segundo plano, como Brothers and Sisters e True Blood, tendem a ter todas as narrativas desenvolvidas de maneira contínua e interligada, personagens super complexos, etc.
Essas definições não são fixas, como a Mariana bem frisou em seu post, mas são interessantes para discutirmos as classificações com base na estrutura da narrativa. Se séries são os programas que tem um desfecho definido, como Lost, e seriados são aqueles cujo desfecho está sempre em aberto, como True Blood, como esses dois produtos audiovisuais são tão parecidos em termos de estrutura narrativa? Isso seria o suficiente para colocá-las na mesma categoria? A maneira como as narrativas pessoais dos personagens são desenvolvidas é relevante o bastante para criar uma nova categoria de classificação? Será que todas as séries podem ser definidas por essas questões?
*flexi-narrativo: quando os arcos narrativos da obra são múltiplos e se apresentam como tramas de começo, meio e fim que podem se desenvolver em único episódio, como no caso das sitcoms, ou em uma temporada, como nos seriados.
por alepri | abr 29, 2010 | NEX!!!
Por Mariana Baltar
Pensando a partir do ótimo post da Érica e das discussões no grupo. As definições de formato (e isso se aplica também aos gêneros) são úteis principalmente porque nos fazem pensar com e a partir das narrativas. mas como a reflexão da Érica tem demonstrado, elas não podem ser gavetinhas onde localizar os programas.
Uma coisa boa de pensar, e que é nossa linha de discussão no grupo, é que definir/classificar não é um processo fechado; não é uma resolução definitiva, mas um marco referencial que serve, mais ainda do que para definir os padrões, para nos ajudar a enxergar melhor os desvios e apreciá-los de modo mais intenso.
ontem mesmo estava lendo um texto do Roland Barthes que me lembrou essa discussão, onde ele teorizava sobre a noção de estilo. o texto era o O Estilo e sua imagem e está no Rumor da Língua em que ele diz: “Escrever é, então, deixar vir a si esses modelos e transformá-los“. Mais adiante, ele lembra que o estilo, mais que as marcas individuais, está ligado aos códigos, aos modelos (padrões) que citados e desviados (um “corpo de vestigios”, diz ele – ADORO!) conformam também um outro sistema estilístico. De modo correlato (vejam, não igual) podemos pensar os gêneros. (aqui vale ler principalmente Steve Neale) e formatos.
Acabei desviando do assunto, quando na verdade queria era chamar a atenção para a necessidade de relativizarmos (ainda que seja super importante) as definições e distinções como essas entre série, seriado e sitcom.
o que importa também é nos perguntarmos quando se define? quando somos convocados a definir e distiguir? e como essa definição orienta um sistema de produção (que no caso da ficção seriada é fundamental) e uma experiência de consumo determinada.
enfim, coisas que pensei a partir da ótima estruturação da Érica e do grupo.
por alepri | abr 29, 2010 | NEX!!!
Por Érica Sarmet
Durante a leitura do texto “A Televisão Levada a Sério”, do Arlindo Machado, me peguei pensando em algumas categorias de séries específicas que, dificilmente, se encaixariam em nossas definições de “série”, “seriado” ou “sitcom”. Relembrando as definições discutidas no grupo:
Séries: são programas que se estruturam de maneira episódica, apresentam temporadas diversas e cujo desfecho narrativo já está determinado desde seu começo. Por exemplo: a série “Smallville” retrata a adolescência de Clark Kent, o Super-Homem. Nós sabemos que a série irá acabar quando Clark Kent se mudar para Metrópolis, trabalhar como jornalista no Planeta Diário e salvar as pessoas diariamente com seu uniforme clássico azul e vermelhosob o título de Super-Homem. Quando ele assumir essa identidade completa, “Smalville” chegará ao fim, pois o espectador já sabe o que acontecerá a partir daí – ele já leu as historias em quadrinhos, viu as séries e os filmes – e é exatamente por esse motivo que ele acompanha “Smallville”: o espectador quer ver a trajetória que o personagem Clark travará até chegar ao seu final – ou começo, melhor dizendo – já conhecido.
Outros exemplos de séries são Lost (o objetivo da série é chegar ao seu final, revelando seus mistérios – se pudesse durar 15 temporadas, como ER, dificilmente teria o mesmo sucesso) e séries que retratam fases específicas da vida dos personagens, como adolescência.
Seriados: são programas que se organizam de maneira episódica, apresentam temporadas diversas e cujo desfecho se encontra em aberto. Como exemplo podemos citar ‘Grey’s Anatomy “, “True Blood” e diversos outros. “Grey’s Anatomy”narra a trajetória de Meredith Grey (Ellen Pompeo) e seus colegas residentes no programa cirúrgico do hospital fictício Seattle Grace. A cada temporada vemos novas situações enfrentadas pelos personagens, porém não há um final determinado, nem mesmo há a certeza de um final: a personagem principal pode morrer, dando fim ao seriado ou não; os outros personagens centrais podem sair, como é o caso de George O’Malley, que morreu na quinta temporada, ou da personagem Addison Montgomery, que ganhou seu próprio spin-off, “Private Practice”. Não há um desfecho certo com que os roteiristas tenham que se preocupar, como é o caso de Smallville, Lost, etc.
Sitcoms: “sitcom” é uma abreviatura da expressão em inglês“situation comedy” ou “comédia de situação”. Sitcoms consistem em séries de televisão, geralmente comédias, que se estruturam em ambientes comuns e reduzidos, como família, grupo de amigos e ou local de trabalho. Possuem em média 30 minutos de duração (contando o tempo do intervalo comercial), número de cenários limitado (geralmente 1 ou 3 ambientes fixos) e narrativas que tem seu início e fim no mesmo episódio. Exemplo:“Friends”conta com 6 personagens principais, havendo geralmente 2 ou 3 narrativas que se desenvolvem paralelamente no mesmo episódio, mas que quase nunca se prolongam pelos episódios seguintes (com exceção das “season finale”, os finais de temporada). Grande parte das sitcoms é gravada em frente a uma platéia ao vivo e caracterizadas pela presença da “claque”, o som artificial de risadas; no entanto, existem séries que podem ser descritas como sitcoms e não apresentam nenhum desses dois elementos, como é o caso de “Scrubs”, “30 Rock” e “The Office”.
A partir desses conceitos, fiquei pensando em qual deles se encaixaria por exemplo o filão de séries criminais, como “Law & Order” e “Cold Case”.
“Law & Order”, “Cold Case”, “CSI”, “Criminal Minds”, séries “criminais” ou “investigativas” em geral possuem a mesma estrutura narrativa das sitcoms: há geralmente 2 ou 3 narrativas que se desenvolvem paralelamente no mesmo episódio, mas que quase nunca se prolongam pelos episódios seguintes (com exceção das “season finale”, os finais de temporada). As narrativas pessoais dos personagens – que seriam o arco narrativo que poderia trazer uma linearidade à série – geralmente ficam à margem: de uma temporada inteira temos um ou outro episódio que revela uma parte dessa narrativa, que geralmente fica em segundo plano em relação às narrativa principais do episódio (a investigação, o crime principal). Um espectador pode assistir aos episódios de maneira descontínua, dificilmente ele não vai entender o que se passa. Não há um arco narrativo que se mantenha ao longo dos episódios e das temporadas, como acontece com séries e seriados.
Seria o caso então de classificá-las como sitcoms? De que maneira essa classificação afetaria a tradição das sitcoms? A temática central – a investigação – as impediria de serem classificadas como tal? Isso implicaria na criação de um novo termo, ou séries criminais deveriam ser colocadas no saco de “seriados”, por não apresentarem um desfecho definido e poderem durar 10, 20 temporadas, como é o caso de Law & Order?
A meu ver, classificar as séries criminais como sitcoms é uma atitude audaciosa pelo fato de “sitcom” ser o único conceito de tv drama que está bem consolidado na mente das pessoas: até sites especializados em críticas de séries se confundem na hora de defini-las como “série” ou “seriado”, mas ao falarem de “sitcoms” quase sempre fazem questão de nomeá-las como tal e de marcar essa distinção, sempre se referindo a séries de comédia de 30 minutos.
Outro elemento importante a ser discutido é o fato dessas séries serem semelhantes em termos de estrutura narrativa, mas se formos levar em consideração outras características utilizadas para definir sitcoms, como o numero limitado de cenários, o ambiente geralmente familiar/amigos/trabalho, o tempo do episódio, aí elas se distanciam consideravelmente: séries criminais na maioria das vezes não repetem cenários, tem muitas externas e sim, quase todas se desenvolvem em um ambiente de trabalho, mas o local de trabalho não é o que gera as narrativas – como em the office ou scrubs, por exemplo – , elas não dependem do ambiente de trabalho para ocorrerem: o que está em questão não é a interação entre os colegas, e sim o trabalho, a investigação. Ele pode se desenvolver na delegacia, no laboratório, mas também nas ruas, nas entrevistas, na investigação.
Esses questionamentos me levaram a pensar mais sobre as estruturas de algumas séries, principalmente nas séries que se passam em locais de trabalho e em como as narrativas pessoais dos personagens se desenvolvem de maneiras distintas em algumas delas. Esse assunto fica para o próximo post.